Vinho e arte se encontram no Rio esta semana: a ArtRio acontece de 16 a 20 de setembro de 2026 na Marina da Glória. É a ocasião perfeita para falar de algumas garrafas do nosso catálogo desenhadas por artistas, e de uma ideia que me acompanha há anos: o vinhateiro também é um criador.

Sou neta de uma pintora e irmã de uma estilista. Cresci em meio a telas, tecidos e conversas sobre cor, e acabei escolhendo o vinho como profissão. Durante muito tempo tratei essas duas coisas como mundos separados. Hoje acho que elas se explicam uma à outra, e a semana da ArtRio, que abre no dia 16 de setembro na Marina da Glória, é o pretexto perfeito para escrever sobre isso.
Depois da minha formação no Certificat de Dégustation Intuitive et Géo-Sensorielle, no centro Dégust’Émoi em Paris, essa intuição ficou mais nítida. Aquele método ensina a descrever o vinho pelo que ele evoca, pela sensação e pelo lugar, e não apenas por uma lista de aromas. É exatamente o vocabulário que se usa diante de um quadro.
Neste texto quero apresentar dez garrafas do nosso catálogo em que a arte não é decoração, e sim parte da história do vinho. E, no fim, defender uma ideia que me é cara: quem faz o vinho também é artista.

La Belle Vie: uma garrafa inteira virou tela
É o exemplo mais literal de vinho e arte no nosso catálogo. A maioria das colaborações artísticas no vinho se limita ao rótulo. Em La Belle Vie en Provence, do Château d’Astros, a garrafa inteira virou suporte.
O artista Arnold d’Alger visitou a propriedade e desenhou a partir do que viu nos caminhos do domaine. O resultado é uma composição que funciona como um caderno de viagem em miniatura: colinas estilizadas, símbolos que lembram constelações, presença solar constante. Ele não representa a Provence literalmente, sugere a região pela luz e pela sombra, com um traço solto e instintivo.

O que me encanta nessa garrafa é a coerência: um vinho de um traço poético dentro de um desenho poético. A forma e o conteúdo dizem a mesma coisa.
Les Petits: nosso primeiro rótulo próprio, desenhado por Gaële Flao
Esta é a colaboração que nos toca mais de perto, porque é nossa. Les Petits, o primeiro vinho de marca própria da Cépage, nasceu com os irmãos Rémy e Eric Estrade, do Domaine de Laxé, em IGP Côtes de Gascogne, no sudoeste da França.
Para os rótulos, convidamos a artista francesa Gaële Flao. Ela é pintora, gravurista e desenhista, formada em artes aplicadas, e trabalha há anos em torno do movimento, do corpo vivo e da ligação entre as pessoas e a natureza. Suas séries passam pela dança, pela migração, pelos abrigos, pelo desenho botânico. É uma artista que atravessa suportes sem hierarquia: óleo, tinta, carvão, serigrafia, têxtil, vídeo. Fundou em Lorient uma associação que funciona como laboratório de encontros artísticos e marítimos.
Era exatamente o espírito que queríamos para uma gama que se chama “os pequenos”: vinhos sem pretensão, feitos para serem abertos sem cerimônia. O Petit Rosé, de Syrah e Merlot, tem aromas de morango, groselha e um toque floral, e é um vinho de fim de tarde. O Petit Rouge 2022 é de Tannat, uma casta local e mais firme.
O acolhimento superou o que esperávamos. O Petit Blanc está esgotado: vendemos toda a primeira leva. Ver o trabalho de uma artista sair da tela e chegar à mesa dos nossos clientes no Rio foi, de longe, o momento mais bonito do projeto.

Les Athlètes du Vin: o humor como assinatura
Les Athlètes du Vin nasceu de uma piada. Fabrice Gendrot e Francis del Tedesco, do coletivo Vini Be Good, no Vale do Loire, viram uma academia de ginástica em frente ao escritório e comentaram que fazer vinho, e bebê-lo, também é esporte. O nome ficou.
Os rótulos são de Michel Tolmer, ilustrador parisiense que eles conheceram em feiras de vinho. Cada rótulo mostra um esporte diferente, escolhido pelo próprio vinhateiro de cada cuvée. O primeiro, de um Sauvignon, traz alguém pulando corda. Outro produtor, que pilota aviões, ganhou um tema aeronáutico. É uma coleção que só faz sentido inteira, e que diz muito sobre a relação entre quem desenha e quem produz.
Pépin: quando o desenho faz a garrafa dançar
Pépin vem da Alsácia. Pierre cresceu entre as vinhas da Achillée, criado na biodinâmica, e fundou o projeto com Xavier. A ideia é simples de enunciar e difícil de executar: vinhos naturais e biodinâmicos acessíveis, feitos ao lado dos vinhateiros, da uva à garrafa, buscando parcelas e produtores artesanais pouco conhecidos.
Os rótulos são, de novo, de Michel Tolmer, com direção gráfica de Joachim Werner. A própria equipe descreve o trabalho dele como obras que fazem a garrafa dançar, e a expressão é exata.
Vale saber quem é Tolmer para entender o que ele traz. Ele é o autor da série de livros “Mimi, Fifi & Glouglou”, com três personagens amantes de vinho, e cocriador de um blog de desenhos sobre o meio. Desenha cartazes de abertura de restaurantes, rótulos, capas. E, detalhe que muda tudo, ele prova os vinhos dos vinhateiros que ilustra. Não desenha à distância. Por isso os rótulos dele têm a leveza de quem está por dentro da brincadeira, e não de quem foi contratado para embalar um produto.
E se o vinhateiro fosse, ele próprio, um artista?

Chego à parte que mais me interessa.
Costumamos reservar a palavra artista a quem pinta o rótulo. Mas pense no que faz um vinhateiro. Ele escolhe as castas, decide quando colher, define a proporção da mistura, escolhe o recipiente da fermentação, arbitra o tempo de maceração, decide se intervém ou se espera. É uma receita, no sentido em que um chef de cozinha entende a palavra: uma sequência de escolhas pessoais que produz um sabor reconhecível.
É aqui que vinho e arte deixam de ser dois mundos que apenas se visitam.
Com uma diferença enorme, e é ela que torna o ofício comovente. O chef prova o prato no mesmo dia. O vinhateiro decide hoje algo que só será julgado daqui a dois, cinco, quinze anos, em uma garrafa que ele talvez nunca veja ser aberta. Trabalha com uma matéria viva, uma safra que não se repete, e um calendário que não perdoa. É criação sob incerteza, que é mais ou menos a definição de qualquer trabalho artístico.
Essa dimensão fica ainda mais evidente nos vinhos orgânicos, biodinâmicos e naturais. Quando se retiram os corretivos, os aditivos e as receitas industriais que uniformizam o resultado, sobra o gesto. E o gesto é pessoal. Duas parcelas vizinhas, com a mesma casta e a mesma safra, dão vinhos diferentes porque duas pessoas diferentes tomaram decisões diferentes. Quem prova vinhos naturais com alguma regularidade acaba reconhecendo a assinatura de um produtor antes mesmo de ler o rótulo, do mesmo jeito que se reconhece a pincelada de um pintor.
É por isso que insisto tanto em contar quem faz o vinho que vendemos. Uma garrafa não é um produto anônimo. É o resultado do ano de alguém.
E é também por isso que essas colaborações funcionam tão bem. Quando um artista desenha o rótulo de um vinho natural, não há dois mundos se encontrando. Há duas pessoas fazendo a mesma coisa, com materiais diferentes.
Vinho e arte na prática: o que levar na semana da ArtRio
Se você vai à feira, ou se vai receber alguém depois de uma tarde de galeria, minha sugestão é simples: abra duas garrafas desenhadas por artistas diferentes e deixe-as na mesa, lado a lado, com os rótulos virados para a frente. A conversa começa sozinha. Funciona melhor do que qualquer discurso sobre harmonização.
E se quiser transformar isso em presente, uma garrafa de rótulo assinado acompanhada de uma frase sua sobre por que a escolheu vale mais do que qualquer embalagem.
Escrevo isto com muito prazer, porque é raro poder juntar vinho e arte, as duas coisas que mais me interessam. Se você passar pela ArtRio e quiser conversar sobre vinho, arte, ou os dois, me escreva.
Victoire Marie Cépage Vinhos : entre em contato.
Ler mais : “Vinho naturel e organico : qual é a diferença ?”

Perguntas frequentes
Quais vinhos da Cépage têm rótulo desenhado por artistas? La Belle Vie, do Château d’Astros, com garrafa inteira desenhada por Arnold d’Alger; a gama Les Petits, com rótulos de Gaële Flao; Les Athlètes du Vin e Pépin, ambos com rótulos de Michel Tolmer.
Quando acontece a ArtRio 2026? A 16ª edição acontece de 16 a 20 de setembro de 2026, na AXIA Marina da Glória, no Rio de Janeiro.
Rótulo bonito significa vinho bom? Não há relação automática. Mas, quando o produtor escolhe trabalhar com um artista de verdade e não com um estúdio de embalagem, isso costuma revelar um cuidado que também aparece no vinho.
O que é um vinho natural ou biodinâmico? São vinhos feitos com intervenção mínima na vinha e na adega, sem aditivos de correção e com uso reduzido ou nulo de sulfitos no caso dos naturais. A biodinâmica acrescenta a isso um trabalho agrícola com preparados naturais e calendário próprio.
Por que falar de vinho e arte? Porque o rótulo é a primeira coisa que se vê de uma garrafa, e porque quem faz o vinho toma o mesmo tipo de decisões que um artista diante de uma tela.
